terça-feira, 24 de junho de 2008

"Como podem os sons invocar emoções tão fortes, alegrias e tristezas, lembranças de momentos especiais ou dolorosos, paixões passadas e esperanças futuras, patriotismo, ódio, ternura? [...] A física explica como ondas sonoras se comportam, suas frequências e amplitudes. A biologia e as ciências cognitivas explicam como o aparelho auditivo transforma essas vibrações em impulsos elétricos que são propagados ao longo de nervos para os locais apropriados do cérebro. Mas daí entender por que um adágio faz uma pessoa chorar, enquanto outra fica indiferente ou até acha aquilo chato, o pulo é enorme. A música fala diretamente ao inconsciente, criando ressonâncias emotivas que são únicas”
[Marcelo Gleiser, professor de Física Teórica do Dartmouth College, em Hanover (EUA)]

A Bela Imediatez*
Nísia Back [Cantora e Compositora] e Mariano da Rosa ["Poeta da Suspeita"]




Nesta primeira edição o Projeto Lítero-Musical 'A Bela Imediatez' [trabalho temático, obra experimental de estilo cubista, que explora diversos gêneros - do "samba-pop-metafísico" ao "jazz-spiritual-blues", do "pop filosófico" ao "funk cubista", do "rap-pop new age" ao "pop tribalista (xamânico)"], que tem o objetivo de resgatar o valor da música como 'arte factu' ['feito com arte'], segundo o legado grego, reúne 8 [oito] poemas de 'O Todo Essencial' [Universitária Editora - Lisboa / Portugal]:


Permuta
Diante da Janela
Diagnose Lírica
Heróica
Última Esperança
Paz
Madrugada Urbana
Sobre a Existência Humana


Tendo Nísia Back [cantora e compositora, atriz-dubladora e produtora] como intérprete, compositora e produtora dos arranjos das músicas, as letras dos textos do 'Poeta da Suspeita' transformaram-se em 'épuras do ser', para usar a expressão do filósofo francês Merleau-Ponty, "pois a música [...] difere de todas as outras artes por não ser cópia do fenômeno ou, mais corretamente, da objetividade adequada da vontade, mas cópia imediata da própria vontade e portanto, apresenta, para tudo o que é físico no mundo, o correlato metafísico, para todo fenômeno a coisa em si" [Schopenhauer]. "[...] Todos os possíveis esforços, emoções da vontade, tudo aquilo que se passa no interior do homem, e que a razão lança no amplo conceito negativo de sentimento, pode exprimir-se pelas infinitas melodias possíveis [...]. A partir desta íntima relação que a música tem com a essência verdadeira de todas as coisas, pode-se também explicar por que, quando soa uma música adequada a alguma cena, ação, evento, circunstância, esta nos parece abrir seu sentido mais secreto e se introduz como o mais correto e mais claro dos comentários [...]" [idem]. Por essa razão até mesmo Sócrates [que, segundo Nietzsche, "até seus últimos dias se tranquiliza com a opinião de que seu filosofar é a suprema arte das Musas e não consegue acreditar que uma divindade viesse lhe falar daquela 'música comum, popular'"], que através de uma visão de sonho ouvia incessantemente o apelo - "Pratica a música!" -, decide, embora somente na prisão [para "aliviar inteiramente a sua consciência"], "praticar até mesmo aquela música que menosprezava". E, ainda de acordo com a leitura nietzschiana, "aquela palavra da visão socrática é o único indício de uma perplexidade quanto aos limites da natureza lógica: será - assim devia ele perguntar - que o que eu não entendo nem por isso é ininteligível? Será que há um reino da verdade, de que o lógico será banido? Será que a arte é até mesmo um correlato e suplemento necessário da ciência?".
*Representando o sentido de toda a tradição da época da tragédia ['Era da Consciência Mitológica'], caracterizada pelo saber místico da unidade da vida e da morte, que constitui uma 'chave' que abre o caminho essencial do mundo, 'A Bela Imediatez', segundo o pensamento nietzschiano, foi subestimada pela 'Era da Razão' [fase do 'Logos', da 'Consciência Filosófica'], imposta pelo arquétipo socrático, que gerou o homem teórico cujo instinto, antes [como em todos os homens produtivos] uma força afirmativa e criadora, tornou-se crítico, e cuja consciência, de uma força crítica e negativa, fez-se criadora, provocando uma verdadeira oposição dialética entre Sócrates e Dioniso ['deus da exuberância, da desordem e da música']. Conjugar o 'apolíneo' [de Apolo, 'deus da clareza, da harmonia e da ordem'] e o 'dionisíaco', complementares entre si [e que foram separados pela civilização], é, pois, a proposta de 'A Bela Imediatez': 'Moral Apolínea' versus 'Paixão Dionisíaca'. Em nome da 'Arte'. "A arte como a redenção do que conhece – daquele que vê o caráter terrível e problemático da existência, que quer vê-lo, do conhecedor trágico. A arte como a redenção do que age – daquele que não somente vê o caráter terrível e problemático da existência, mas o vive, quer vivê-lo, do guerreiro trágico, do herói. A arte como a redenção do que sofre - como via de acesso a estados onde o sofrimento é querido, transfigurado, divinizado, onde o sofrimento é uma forma de grande delícia. [...] A arte como a tarefa própria da vida, a arte como a sua atividade metafísica...”

“Eis o que nos acontece no domínio musical: é preciso antes de tudo aprender a ouvir uma figura, uma melodia, saber discerni-la com o ouvido, distingui-la, isolá-la e delimitá-la enquanto vida para si; em seguida, é preciso esforço e boa vontade para suportá-la, apesar de sua estranheza, usar a paciência para seu aspecto e sua expressão, ternura pelo que ela tem de singular; - vem enfim o momento em que nos habituamos a ela, em que nós a esperamos, em que sentimos que nos faria falta, se se ausentasse; e daí em diante ela não deixa de exercer sobre nós sua imposição e sua fascinação, até que tenha feito de nós seus amantes humildes e maravilhados, que não concebem melhor coisa no mundo e só desejam a ela e mais nada”
[Nietzsche]

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